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Balneário Camboriú: A cidade vertical à beira do Atlântico
$60 - $250/dia 3-5 dias mar., abr., mai., set., out., nov. (Meia estação (outono/primavera)) 6 min de leitura

Balneário Camboriú: A cidade vertical à beira do Atlântico

Descubra Balneário Camboriú além dos arranha-céus: teleféricos, vilas históricas e o contraste entre a cidade e a Mata Atlântica.

A sombra dos arranha-céus toca a areia muito antes do pôr do sol. É um alívio refrescante do calor intenso de Santa Catarina, uma linha de sombra traçada pelo colossal One Tower que se ergue atrás de mim. O ar aqui é denso com aromas contraditórios: o sal do Atlântico se mistura ao cheiro adocicado de canela do Trudel — um bolo de rolo assando em uma grelha próxima. À minha esquerda, as ondas quebram com um baque ritmado; à direita, uma parede de vidro e aço sobe tão alto que parece tocar as nuvens. Chamam este lugar de "Dubai Brasileira", um nome que sugere algo artificial, construído, talvez sem alma. Mas ao caminhar pela recém-alargada faixa de areia da Praia Central, desviando das bolinhas de beach tennis e ouvindo o burburinho das famílias falando português acelerado, a cidade pulsa vida de verdade.

Praia Central - Foto de Adriano Mascarenhas

Balneário Camboriú é um exemplo de ambição vertical espremida em apenas cinquenta quilômetros quadrados. Abriga alguns dos prédios residenciais mais altos da América do Sul, monólitos que refletem o mar como espelhos. Mas focar só na altura é perder a profundidade. Saio da movimentada Avenida Atlântica e sigo para o sul, em direção à Barra Sul. Aqui, a energia frenética do centro dissolve-se no ritmo mais lento do encontro do rio com o mar. Me vejo diante da Passarela da Barra, uma ponte sinuosa para pedestres que faz mais do que cruzar a água — parece cruzar o tempo.


Do outro lado está o Bairro da Barra, o berço da cidade. O ronco dos motores de luxo some, substituído pelo canto dos pássaros e o farfalhar das folhas. Dou de cara com a Capela de Santo Amaro, uma igreja branca e simples, com fundações de 1758. O contraste é forte: uma construção colonial sobrevivendo à sombra da hiper-modernidade. Lá dentro, o ar é fresco e cheira a madeira antiga e cera de vela. Diz a lenda que o sino da igreja rachou de tanto ser tocado para anunciar o fim da escravidão.

Um senhor idoso senta-se num banco do lado de fora, observando os barcos de pesca balançando no Rio Camboriú. Ele me vê olhando para o horizonte de prédios do outro lado da água.

"Cresce rápido", diz ele, sem me encarar, os olhos fixos nas torres de vidro refletindo a luz alaranjada do entardecer.

"Rápido demais?" pergunto, sentando no banco de madeira aquecido pelo sol.

Ele dá de ombros, devagar. "Traz gente. Traz dinheiro. Mas este lado?" Ele bate no banco com a mão calejada. "Este lado lembra o que éramos antes dos elevadores. Não dá para construir o futuro sem saber onde pisou no passado."

Ele me conta dos pescadores que atravessavam as pessoas no rio, muito antes da ponte, muito antes das luzes de néon. É um lembrete de que, sob o concreto, ainda existe uma vila à beira-mar.


Para entender a geografia daqui, é preciso sair do chão. Na manhã seguinte, sigo para o teleférico do Parque Unipraias. O bondinho nos leva suavemente da estação da Barra Sul, deslizando sobre a foz do rio. À medida que subimos, a cidade encolhe e vira maquete, e o barulho do trânsito some, engolido pelo silêncio verde e denso da Mata Atlântica. Este é o único parque do mundo que conecta duas praias com uma parada na floresta.

Desço na estação Mata Atlântica, a 240 metros de altura. O ar aqui é mais puro, rico em oxigênio e cheira a terra molhada e samambaias. Caminho pelas trilhas até os mirantes. Ao norte, a curva de Balneário Camboriú parece um sorriso de areia e pedra; ao sul, o mar se estende sem fim. Para quem busca adrenalina, há o Zip Rider — uma descida de alta velocidade que tira o fôlego — mas eu prefiro observar o chão da floresta em silêncio.

O bondinho desce de novo, nos deixando na Praia de Laranjeiras. A água aqui é verde-esmeralda e calma, protegida pela enseada. Parece outro mundo, distante do mar aberto da Praia Central. Passo a tarde molhando os pés, vendo famílias dividirem porções generosas de camarão frito, a linguagem universal do verão na praia.

Praia Central - Foto de TARSO OLLIVER


De volta à cidade, a conexão com a água continua, mas agora atrás do vidro. O Aquário Oceânico é um exemplo moderno de conservação. Não é só exposição; é santuário. Vejo Jean Miguel e Carlos Daniel, duas lontras cheias de personalidade, nadando com alegria frenética. O aquário também abriga axolotes, os raros "peixes que andam", reproduzindo-os para garantir a sobrevivência da espécie. É uma parada prática — especialmente se você comprar o "Passaporte da Diversão" que inclui o aquário, o Classic Car Show e outras atrações — mas também é uma visita emocionante. Ver o equilíbrio delicado da vida marinha a poucos metros da selva de concreto reforça a relação frágil da cidade com a natureza.

Quando a noite cai, a fome aparece. A cena gastronômica de Balneário é tão vertical e diversa quanto sua arquitetura. Escolho uma mesa na Pizzaria Bis, na Avenida Atlântica. A pizza "Paris" chega à mesa com a borda polvilhada de parmesão antes de assar, garantindo uma crocância deliciosa a cada mordida. Depois, sigo o som da música ao vivo até o Essazona Bar. O clima é vibrante — surf music, coquetéis exóticos e um prato de iscas de cação com limão siciliano. O chef, Olavo Loureiro, sabe equilibrar o sal do mar com a riqueza do comfort food. É barulhento, é alegre, e parece que a cidade finalmente respira depois de um longo dia de sol.


Minha manhã final começa no escuro. Acordo às 5h para subir a Estrada da Rainha em direção ao Morro do Careca. A estrada passa pela famosa "Rua Torta", desenhada para desacelerar os carros e encantar os pedestres, mas meu destino é mais alto.

Chego ao topo quando o céu começa a se tingir de roxo e dourado. O Morro do Careca é ponto de encontro de praticantes de parapente, mas a essa hora, sou só eu e o vento. Deste mirante, a 100 metros acima do mar, vejo perfeitamente a dualidade da região. De um lado, a malha urbana densa de Balneário; do outro, a natureza mais selvagem e verde da Praia Brava. O sol rompe o horizonte, pintando os arranha-céus de fogo e ouro.

Praia Central - Foto de Ak Delicatessen

Lá embaixo, a cidade desperta. O trânsito vai começar, os bondinhos vão rodar e multidões vão lotar o Beto Carrero World, ali perto, atrás de montanhas-russas e barulho. Mas aqui de cima, vendo a luz tocar a água, percebo que o senhor da ponte tinha razão. Os prédios impressionam, sim. Mas é a terra por baixo — os morros, a floresta, a curva da baía — que realmente prende você.