Boa Vista, Roraima: Guia Prático de Cultura e Natureza
Descubra Boa Vista, capital de Roraima: artesanato Macuxi, sabores amazônicos e passeios econômicos pelo Rio Branco. Dicas práticas para explorar.
Índice
- As Mãos dos Macuxi
- Uma Cidade em Forma de Leque
- Sabores da Amazônia
- Entre o Sol e a Lua
- Águas Dançantes ao Anoitecer
- Banquete no Recanto da Peixada
O buriti trançado parece áspero, mas flexível sob meus dedos, exalando um leve aroma terroso de folhas secas e margens de rio. O ar do mercado é denso, carregado pelo calor da tarde e pelo zumbido ritmado do trânsito de Boa Vista. “Demora dias pra fazer”, diz seu Jaime, sem tirar os olhos do chapéu que ajusta com mãos calejadas. Ele é Macuxi, um dos povos indígenas que formam a base cultural de Roraima.
“Tudo feito à mão?”, pergunto, virando o chapéu de abas largas e examinando os padrões geométricos do trançado.
Ele finalmente ergue o olhar, um orgulho discreto marcando o canto dos olhos escuros. “Só as mãos e as palmeiras do mato”, responde, quase sussurrando. Entrego vinte e cinco reais — um preço simbólico por uma peça de história viva — e coloco o chapéu. O encaixe é perfeito, protegendo do sol equatorial sem pesar. Este centro de artesanato, discreto ao lado da igreja de arquitetura germânica, é um ponto de resistência da cultura indígena na capital mais ao norte do Brasil.

Ao sair da sombra do mercado, Boa Vista se revela de um jeito inesperado. Acompanho Hélio, guia local, rumo à Praça do Centro Cívico. O calor que sobe do asfalto é seco e intenso, bem diferente da umidade sufocante do interior da Amazônia. É um contraste marcante com minha chegada, quando só um prato reforçado no Restaurante Tulipa e o ar-condicionado do Ibis Hotel aliviaram o cansaço da longa viagem desde o Amapá.
“Repara nas ruas”, aponta Hélio, indicando as avenidas largas que se espalham em leque. “A cidade inteira foi planejada assim. Tudo converge aqui, no Centro Cívico.”
Boa Vista é horizontal. O céu parece imenso, sem prédios altos ou floresta densa. Hélio explica que aqui, no Lavrado — um bioma plano, semelhante ao Cerrado — os primeiros colonizadores não precisaram desbravar mata fechada. O terreno raso e a vegetação baixa facilitaram a chegada das famílias de pecuaristas. O nome Boa Vista veio de uma fazenda local, famosa pela vista privilegiada do rio.
No início da tarde, o cheiro de alho, coentro e peixe frito me leva ao Restaurante Rio. O deque de madeira oferece aquela vista aberta que batizou a cidade. O buffet destaca raízes e peixes de rio, mas é a Cumbuca Macuxi que se destaca.
O prato chega fumegante na tigela de barro. Uma colherada revela sabores intensos e terrosos da Amazônia. Rico, marcante, com peixe branco desmanchando na boca. A influência Macuxi não está só no artesanato: está viva na mesa, evoluindo com quem mora aqui. Encosto na cadeira de madeira, bebida gelada na mão, observando o Rio Branco refletir o azul sem nuvens do céu.

O casco do pequeno barco range quando subo. Sr. Vou Pouco e Dona Marina me recebem com sorrisos marcados pelo tempo. O motor de popa tosse e ganha ritmo, ecoando pelo rio largo. Por apenas oito reais, moradores cruzam de canoa motorizada até as prainhas — faixas de areia branca que surgem na seca. Famílias armam guarda-sóis e se refrescam na água cor de chá.
Seguimos além. O barco corta a correnteza rumo à ponte que liga Roraima à Guiana. O vento quente bate no rosto. O céu começa o espetáculo do entardecer: ao oeste, o sol pinta o horizonte de laranja, violeta e pêssego; ao leste, a lua cheia desponta. Por alguns minutos, estamos entre dois astros. Sr. Vou Pouco reduz o motor. Só se ouve a água contra o casco. Um silêncio raro, desses que fazem esquecer o resto do mundo.

Aqui no Equador, a noite cai rápido e muda o ritmo da cidade. Caminho pelas largas passarelas da Praça das Águas. O calor cede espaço a uma brisa agradável, atraindo famílias. De repente, música clássica ecoa das caixas escondidas e as fontes entram em cena: jatos de água iluminados sobem e descem ao som da melodia, em tons de rosa, azul e verde. Crianças riem, correndo perto da água, alegria pura cortando a noite.
A fome aperta. Minha última parada é o Recanto da Peixada, referência local onde o cheiro de peixe assado já anuncia o jantar. O chef Hélio surge com uma travessa fumegante: Dourado inteiro, coberto por molho cremoso de camarão. O aroma mistura manteiga, maresia e o leve defumado do peixe.
A primeira garfada confirma: peixe macio, camarão doce, combinação perfeita para fechar o dia. Entre pratos e conversas em português, percebo como Boa Vista surpreende. É um lugar de encontros improváveis: o savana seca encontra a floresta, tradição indígena convive com urbanismo planejado, o calor do sol cede à lua. Não se passa apenas por uma cidade de fronteira assim — é preciso sentar à mesa, vestir o buriti e deixar o rio levar para novos caminhos.
Mais Fotos
