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Curaçao: Praias Selvagens e Cultura em Willemstad
$80 - $250/dia 5-8 dias jan. - mai. (Estação seca (jan-mai)) 6 min de leitura

Curaçao: Praias Selvagens e Cultura em Willemstad

Descubra Curaçao: das florestas de cactos de Westpunt às ruas vibrantes de Willemstad e o isolamento de Klein Curaçao. Um roteiro sensorial e completo.

O calor aqui tem peso. Pressiona contra o para-brisa do meu carro alugado, distorcendo o horizonte onde as florestas de cactos encontram o céu. É um calor seco e empoeirado, do tipo que faz o súbito surgimento do Mar do Caribe parecer uma miragem. Sigo dirigindo para o norte, longe dos resorts bem-cuidados, rumo ao coração selvagem de Curaçao. Não há placas de boas-vindas aqui, apenas o som dos pneus no cascalho ao estacionar no pequeno lote da Playa Jeremy.

A água não é apenas azul; é uma cor que exige um novo vocabulário. É turquesa, safira e algo totalmente transparente ao mesmo tempo. Passo por cima das pedras vulcânicas escuras, o silêncio só é quebrado pelo farfalhar seco de uma enorme iguana no mato. Ele me observa com olhos antigos e imóveis enquanto mergulho no mar. A água é refrescante sob o sol do meio-dia e a visibilidade é total. Não é preciso barco aqui; o recife começa onde os pés deixam a areia.

Little Curacao - Foto de Jeannette Brouwer


Alguns quilômetros adiante, o cheiro chega antes mesmo de ver o mar—peixe fresco, sal e o toque metálico dos motores dos barcos. Playa Piskado não é lugar para relaxar; é um espaço de comércio e convivência. São 9h, a hora de ouro dos pescadores locais limpando suas capturas no píer de madeira.

“Você chegou cedo”, diz um pescador, sem tirar os olhos da faca. Ele fatia um mahi-mahi com precisão cirúrgica.

“Só estou com fome”, brinco.

Ele ri, um som grave que vibra no peito, e joga uma cabeça de peixe na água. “Eles também estão com fome.”

Olho para baixo. Formas sombrias deslizam sob a superfície. Tartarugas-verdes, enormes e graciosas, circulam entre os barcos, esperando pelo café da manhã. Ajusto minha máscara e mergulho. É uma dança caótica e linda. As tartarugas ignoram minha presença, focadas apenas nos restos que caem do píer acima. Parece que invado um ritual privado, um acordo simbiótico entre os homens no cais e os gigantes na água. Fico ali por uma hora, suspenso na clareza, observando um mundo com ritmo próprio.


A estrada segue para oeste, passando pelos saltadores do penhasco em Playa Forti, que se lançam no abismo, e rumo à perfeição de cartão-postal de Kenepa Grandi. Essa é a imagem que todos veem na internet, mas a realidade tem uma textura que a tela não mostra. A areia é macia como farinha e a água é um degradê de azuis elétricos que parecem pintados. Paro em um quiosque à beira da estrada, o aroma de óleo quente se misturando ao ar do mar.

“Dushi”, diz a mulher do balcão ao me entregar uma bebida gelada. A garrafa sua na umidade.

“Dushi?” pergunto.

“Significa doce, legal, bonito, querido”, ela explica, sorrindo e mostrando um dente de ouro. “O mar é dushi. A comida é dushi. Você é dushi. Tudo de bom é dushi.”

Volto para o centro da ilha com o carro alugado. Ter um carro aqui é indispensável; os melhores lugares ficam em estradas de terra onde táxis quase não vão. Paro para abastecer, tropeçando com o cartão de crédito até o frentista acenar. “Só dinheiro na máquina”, ele diz. Entrego os Florins que saquei antes—moeda necessária, embora o dólar americano seja aceito quase em todo lugar.


Willemstad parece outro planeta em comparação com as silenciosas florestas de cactos do oeste. A cidade é um festival de arquitetura colonial holandesa em tons pastéis, como se Amsterdã tivesse sido reinventada por um pássaro tropical. Chego bem quando a ilha se pinta de laranja para o King's Day. As ruas viram um mar de foliões, música pulsando em cada esquina, o ar denso com cheiro de cerveja e comida de rua.

Caminho sobre a Ponte Rainha Emma, a famosa “Velha Senhora Balançante”. Ela flutua sobre pontões e, quando um navio se aproxima, toda a ponte se abre, empurrando suavemente os pedestres para o lado. O balanço é inegável, um lembrete físico da ligação da cidade com o mar. Do outro lado, no bairro de Punda, o mercado literalmente flutua. Barcos venezuelanos atracam carregados de mangas, bananas-da-terra e abacates, formando um bazar flutuante que balança suavemente no porto.

Little Curacao - Foto de Wes Diele


Mas o isolamento que eu procuro exige um barco. Na manhã seguinte, embarco rumo a Klein Curaçao, um minúsculo e desabitado ponto de terra a duas horas da costa. A travessia é agitada, as ondas do Atlântico testam o estômago, mas o destino é de outro mundo.

Desembarcamos em uma faixa de areia branca que se estende por quilômetros. Não há nada ali além de um farol decadente no centro da ilha e o casco enferrujado de um naufrágio no lado de barlavento. Parece assombrado e sagrado ao mesmo tempo. Caminho até o farol, o calor intenso, o silêncio absoluto. Debaixo d’água, porém, a vida pulsa. Vejo uma arraia do tamanho de uma mesa de jantar enterrada na areia, seus olhos me observando enquanto flutuo acima. Os US$ 140 do passeio incluem café da manhã e almoço, mas o verdadeiro valor é essa sensação de estar à beira do mundo.


De volta à ilha principal, a fome me leva ao Williwood. É uma parada à beira da estrada famosa por uma coisa: hambúrguer de cabra.

“Tem gosto da ilha”, diz o cozinheiro, virando o hambúrguer. A fumaça sobe da grelha, trazendo o aroma de cominho e carne tostada.

Ele tem razão. A carne é rica, levemente selvagem, temperada com especiarias que contam a história complexa da ilha. Como sentado em um banco de madeira, vendo o sol sumir atrás das colinas.

Minha última parada é Tugboat Beach. É industrial, bruta, perto de uma plataforma de petróleo, mas sob a superfície está um rebocador afundado há anos, agora coberto de corais e cercado por cardumes de peixes-papagaio azuis. É uma metáfora perfeita para Curaçao: áspera e industrial nas bordas, mas com uma beleza espetacular logo abaixo da superfície.

Little Curacao - Foto de Ricardo

Enquanto arrumo as malas, enxaguando o equipamento de snorkel pela última vez, percebo que não visitei apenas uma ilha; atravessei um espectro. Do oeste silencioso e empoeirado ao caos laranja da cidade, Curaçao não é só um lugar para ver. É um lugar para sentir, saborear e, no fim, se entregar.