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Montevideo devagar: viva a capital tranquila do Uruguai
$70 - $130/dia 3-4 dias mar., abr., out., nov. (Outono e Primavera) 4 min de leitura

Montevideo devagar: viva a capital tranquila do Uruguai

Montevideo encanta no ritmo lento—vento no rosto, carne na brasa e o charme de cidade pequena. Descubra comigo cada detalhe dessa capital acolhedora.

O vento é a primeira coisa que se nota. Ele gira pelos cantos da Plaza Independencia, puxando casacos e cabelos, trazendo o cheiro salgado do Río de la Plata e a fumaça adocicada das churrasqueiras ao longe. Fico à beira da praça, piscando sob a luz pálida da manhã, sentindo o ritmo lento e constante da cidade sob meus pés. O Palácio Salvo se impõe acima, sua coroa ornamentada captando o sol, e em algum lugar próximo, o som de tambores ecoa nas pedras—protesto ou celebração, aqui costuma ser os dois.

Plaza Independencia na luz da manhã, Montevideo

Uma mulher de lenço vermelho se apoia no monumento a Artigas, sua voz baixa ao me dizer: “Ele é nosso herói, sabe? O pai do Uruguai.” Concordo com a cabeça, acompanhando com os olhos o contorno das botas da estátua, e desço os degraus até o mausoléu. Lá embaixo, o silêncio reina, o ar é fresco e pesado, dois guardas permanecem firmes como se o tempo tivesse parado em respeito. Fico um tempo, lendo as letras de bronze, sentindo o peso da história sobre os ombros.


A fome me leva para oeste, pelas ruas estreitas da cidade velha, passando pela réplica desgastada do portão da Ciudadela e entrando no Mercado del Puerto. O mercado é um festival de sons e aromas—carne assada, fumaça de lenha, o toque ácido do chimichurri, risadas ecoando nas vigas de ferro. Garçons chamam de cada porta, cardápios em mãos, prometendo a melhor parrilla de Montevideo. Escolho uma mesa na Cabaña Verónica, atraído pelo sorriso fácil do homem na entrada.

“Medio y medio?” ele pergunta, já servindo a mistura de vinho e espumante em um copo lascado. O primeiro gole é estranho, depois surpreendentemente perfeito—seco, levemente doce, um pouco selvagem. Meu entrecôte chega, rosado no centro, ladeado por uma pilha de batatas fritas. A carne é macia, defumada, salgada na medida. Fecho os olhos e deixo o sabor ficar, o burburinho do mercado virando um fundo distante.

“É caro aqui”, comento, olhando a conta. Ele dá de ombros: “Mas você lembra do sabor, não do preço.”


A cidade se descobre melhor a pé. Meu hotel é um quarto limpo e iluminado, perto da Plaza Independencia, lençóis impecáveis, o ar com leve cheiro de desinfetante cítrico. Daqui, tudo está perto: o grandioso Teatro Solís, com colunas douradas à tarde; a Sarandí, só para pedestres, cheia de livrarias e cafés; a arborizada Plaza Constitución, onde os sinos da igreja Matriz soam sobre o burburinho das crianças e o tilintar das xícaras de café.

No Café La Farmacia, os antigos armários de madeira ainda revestem as paredes, potes de vidro com rótulos em caligrafia. Peço um cappuccino e um doce de pistache, a espuma polvilhada de canela, o açúcar cortando o frio. A barista, jovem de dedos manchados de tinta, sorri ao deslizar a xícara. “Você não é daqui”, diz, mais constatação que pergunta.

“Não”, admito. “Mas queria ser.”

Ela ri: “Então fique mais. Montevideo é devagar, mas conquista.”


Plaza Independencia com Palácio Salvo, Montevideo

O vento aumenta quando atravesso o Parque Rodó, as árvores se curvando, o lago verde e encrespado. Casais dividem mate na grama, o aroma amargo do chá pairando no ar. Observo um pescador lançar a linha, paciente enquanto a cidade gira ao redor. O sol se esconde atrás de uma nuvem, a temperatura cai, aperto o casaco, agradecido pelo calor.

Mais tarde, paro numa pequena parrilla perto da Rambla, a longa orla curva da cidade. A grelha chia, gordura pingando no carvão, o ar denso com a promessa do jantar. Meu bife chega, tostado e suculento, com uma fatia de queijo provolone borbulhando ao lado. O dono, magro e sorridente, se inclina no balcão. “Gostou?”

“Muito”, respondo, boca cheia, e ele sorri largo. “Ótimo. Aqui, você come como em família.”


Na última manhã, caminho pela Rambla enquanto a cidade desperta. Corredores passam, respiração formando nuvens no frio, enquanto senhores se sentam nos bancos, olhos fixos no prata do rio. O trânsito é leve, o ritmo sem pressa. Penso em outras capitais—Bogotá, Santiago—como vibram e rugem. Montevideo, ao contrário, parece uma cidade que suspira, confortável em sua própria pele.

Paro no letreiro de Montevideo, o vento puxando meu cachecol, o Río de la Plata largo e cinza ao fundo. A cidade está calma, quase meditativa. Respiro o sal e a promessa de mais um dia devagar e, por um instante, entendo o que a barista quis dizer. Montevideo conquista—não pelo espetáculo, mas pelo acúmulo suave de pequenos momentos perfeitos.

Plaza Independencia, Montevideo, com palmeiras e monumento