Palmas: Calor, Concreto e o Rio Tocantins em Essência
Descubra Palmas além do Jalapão: praias fluviais, a imensa Praça dos Girassóis e o calor intenso da mais jovem capital do Brasil.
Índice
- O Calor da Praça
- Uma Planta que Ganhou Vida
- Sombras e Refúgios
- Oásis do Rio
- Chuva na Estação Seca
A luz reflete no mármore branco do Palácio Araguaia com tanta intensidade que preciso semicerrar os olhos só para ver as horas. É meio-dia na Praça dos Girassóis, e o calor não é apenas uma temperatura; é um peso físico, pressionando a vasta e geométrica extensão de concreto. Aqui não há umidade, apenas uma presença solar seca e cortante que parece assar o silêncio no ar.
Um senhor empurra um carrinho de picolés, seu movimento é lento e deliberado. Ele para perto de mim, enxugando a testa com um pano já gasto.
"Você está andando?" ele pergunta, olhando para minha câmera.
"Só um pouco," respondo.
Ele ri, um som seco como folhas esmagadas. "Um sol para cada pessoa. É assim que falamos aqui no Tocantins. Hoje você tem o seu próprio sol, meu amigo."
Compro um picolé de limão só para sentir algo gelado. Esta é Palmas. Para a maioria dos viajantes, a cidade é apenas uma pausa logística—um lugar para pousar, dormir seis horas e embarcar em um 4x4 rumo às dunas do Jalapão. Mas parado aqui, no centro da maior praça pública da América Latina, percebo uma ambição estranha e crua. A escala é esmagadora, feita para gigantes e não para pedestres, mas há uma beleza bruta em sua ousadia.
Para entender essa paisagem, é preciso saber que nada disso existia há quarenta anos. Tocantins é o filho caçula da federação brasileira, separado do estado de Goiás em 1988 porque o norte se sentia esquecido. Traçaram uma linha no mapa e decidiram construir o futuro a partir da poeira vermelha do cerrado.
Ao passar pelo Monumento aos 18 do Forte de Copacabana—uma escultura de bronze que parece surreal diante do horizonte plano—sinto que caminho por uma planta que ganhou vida. As avenidas são largas o suficiente para pousar aviões. As rotatórias são imensas. A cidade nasceu em 1º de janeiro de 1990 e ainda parece crescer dentro da própria pele. É um lugar de planejadores e engenheiros, impondo ordem ao mato bravo.
O sol acaba vencendo o debate, e eu recuo para o Parque Cesamar. Ele funciona como os pulmões da cidade, um trecho denso de verde que oferece o único refúgio real do brilho do meio-dia. A temperatura cai assim que entro sob as copas das árvores. O cheiro de asfalto quente é substituído pelo aroma de terra úmida e folhas em decomposição.
Sento-me em um banco perto do lago, observando famílias estendendo toalhas de piquenique. Um movimento na grama chama minha atenção. Uma iguana, verde e pré-histórica, congela no meio do passo. Poucos metros adiante, uma família de capivaras pasta à beira d’água, totalmente indiferente aos corredores que passam. Em uma cidade definida pelo concreto e pela geometria, esse surto caótico de vida é essencial. É o lugar para desacelerar, tomar água de coco e esperar o calor ceder.
No fim da tarde, o Rio Tocantins nos atrai para suas margens. Aqui ele é tão largo que lembra o mar, estendendo-se até o horizonte. Na Praia da Graciosa, o píer está cheio de moradores em busca de alívio. Entrego cinquenta reais a um barqueiro para um passeio de ida e volta até a Ilha do Canela.
"O vento está bom hoje," ele grita acima do ronco do motor. O barco corta a água barrenta, oferecendo uma brisa que parece uma bênção.
A Ilha do Canela é uma ilha artificial, um oásis de lazer ancorado no fluxo do rio. Quiosques de palha servem cerveja gelada e peixe frito do rio. Peço uma porção para dois—custa quase 130 reais, um preço que reflete mais a logística do que os ingredientes—mas o cenário compensa.
O destaque, porém, é a área de banho. Uma grossa rede delimita o perímetro na água.
"A correnteza é tão forte assim?" pergunto ao garçom enquanto ele traz nosso peixe com crosta de limão.
"Não é a correnteza," ele diz, apontando para além da rede. "São as piranhas. O rio é delas. A gente só pega emprestado esse pedacinho."
Nado dentro da rede, a água morna e turva. Saber o que nada a poucos metros de distância dá um certo frio na barriga. Do outro lado, o skyline de Palmas tremula na onda de calor, um miragem de linhas verticais contra o céu plano.
Voltamos ao continente esperando um pôr do sol dourado, mas o cerrado é imprevisível. É setembro, auge da estação seca, mas nuvens escuras e pesadas começam a engolir o céu. A pressão do ar cai. De repente, a chuva chega—não uma garoa, mas um temporal forte e purificador que não aparecia desde maio.
Do meu quarto no Hplus Premium, vejo a tempestade transformar a cidade. O horizonte, geralmente visível até o rio, agora é uma parede de água cinza. O cheiro de terra molhada invade até o ar-condicionado.
Quando a chuva passa, a cidade brilha. A poeira foi lavada, e a terra vermelha ganha um tom carmim profundo. Palmas costuma ser vista apenas como ponto de passagem, um intervalo quente e empoeirado antes da aventura de verdade. Mas ao ver os postes refletindo no asfalto molhado, enxergo uma cidade com gravidade própria. É uma cidade fronteiriça vestida de capital, lutando contra o sol todos os dias e esculpindo vida no calor.
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