Paraúna: Serra das Galés, pontes e vinhos do Cerrado
Descubra Paraúna: taças de pedra, pontes naturais, vinhos do Cerrado e cachoeiras. Um roteiro sensorial pelas lendas e paisagens de Goiás.
O sol já está alto quando saio do carro, a poeira vermelha rodopiando ao redor dos meus tornozelos. O ar é seco, com cheiro de capim e algo mineral, quase metálico. Um galo canta ao longe, e o único outro som é o cascalho rangendo sob meus pés enquanto atravesso o estacionamento na entrada da Serra das Galés. O Google Maps me trouxe até aqui, mas o resto depende das minhas pernas e curiosidade—uma trilha suave, pouco mais de um quilômetro, serpenteando pelo Cerrado baixo e retorcido.

A trilha é fácil, sombreada em alguns trechos por árvores tortuosas. Passo por uma família com cesta de piquenique, as risadas ecoando nas pedras. A primeira formação surge à frente: Pedra da Tartaruga, com o dorso arredondado e a cabeça projetada, inconfundível. Passo a mão pela superfície fria e irregular, sentindo o trabalho lento do vento e da chuva. Ali perto, o verdadeiro cartão-postal se impõe—um cálice de pedra, equilibrado de forma impossível, a base fina como um pulso, abrindo largo no topo. Os moradores chamam de Pedra do Cálice, e é o símbolo de Paraúna por um motivo. Dou a volta, pescoço esticado, admirando como não tombou em mil tempestades.
Uma mulher de chapéu sorri enquanto desenha a cena. “Viu o rosto naquela ali?”, pergunta, apontando para uma pedra que, com um pouco de imaginação, pode ser uma onça ou o perfil de uma mulher indígena. “Ou talvez um camelo, se você quiser viajar.”
Dou risada. “Eu vejo um cogumelo também. Ou um halter.”
Ela concorda. “Essa é a graça. Cada um enxerga uma coisa.”
Aqui não há cobrança de entrada, nem guia obrigatório, só um pedido discreto numa placa pintada à mão: preserve o que encontrar. Guardo no bolso um papel de bala esquecido, pensando em tantos nomes riscados em pedras pelo Brasil. A verdadeira magia está em não deixar rastros, permitindo que o próximo visitante invente suas próprias lendas.
A estrada de saída da Serra das Galés é esburacada, a paisagem se estendendo em ondas de verde e ocre. Sigo placas desbotadas e abro três porteiras—uma delas marcada com um coração vermelho—até que o terreno despenca e revela a Muralha de Pedra. Ela se estende por quilômetros, uma fita negra de basalto serpenteando pelo mato, alguns trechos mais altos que eu, cada bloco empilhado com precisão impressionante. O ar aqui é mais fresco, o silêncio mais profundo, quebrado só pelo vento assobiando nas frestas.

Ninguém sabe quem construiu, nem por quê. As teorias variam—civilizações antigas, rituais perdidos, divisas de fazenda—mas a verdade se perdeu no tempo. Encosto a mão no basalto, ainda quente do sol, tentando imaginar as mãos que colocaram pedra sobre pedra. “É um mistério”, diz um senhor que surge do mato com um cajado. “Dizem que é mais velha que a memória. Talvez seja só um muro. Ou talvez seja mais.”
A manhã traz outro tipo de encanto. O ar é doce de orvalho e da promessa distante de uvas fermentando. Estou na Vinícola Serra das Galés, um vinhedo que prospera contra todas as expectativas no coração de Goiás. Fileiras de parreiras se espalham pela terra vermelha, folhas tremendo ao vento. Lá dentro, a adega fresca cheira a carvalho e fruta, barris alinhados como sentinelas.
Valdiro, o enólogo, serve um tinto profundo na taça. “Aqui, a videira nunca dorme”, explica, voz suave entre o tilintar de garrafas. “Não tem inverno, não tem dormência. Podamos duas vezes por ano, colhemos em julho e agosto, quando os dias são claros e as noites frias.”
Giro o vinho, vendo a luz brincar no rubi do líquido. O primeiro gole surpreende—maduro, um pouco selvagem, com toque das ervas do Cerrado. “É bom”, digo, sincero.
Ele sorri. “É nosso. O terroir aqui é diferente. A terra, o clima, o povo. É isso que faz o vinho.”
O tour com degustação custa quarenta reais, agendado antes. Os rótulos homenageiam as lendas locais: o Cálice, a Muralha. Saio com uma garrafa debaixo do braço, o sabor de Goiás ainda na boca.
A estrada para a Cachoeira Sonho é bruta, daquelas que sacodem até a alma e fazem valorizar cada quilômetro asfaltado de casa. Mas a recompensa é imediata—uma caminhada curta, só 150 metros, e estou diante de uma queda d’água que despenca numa piscina cristalina e gelada. O spray é afiado na pele, o barulho da água engole qualquer pensamento. Entro, deixando a correnteza puxar as pernas, o mundo reduzido à sensação de pedra e água.
As noites em Paraúna são silenciosas, daquele silêncio que se instala fundo. Fico na Fazenda Primavera, um Airbnb na beira da cidade, cinco estrelas pelo acolhimento, se não pelo luxo. A casa é simples—três quartos, cozinha grande, fogão a lenha—mas o coração está do lado de fora, onde cães resgatados descansam na sombra. Cada reserva ajuda a manter o abrigo, e de manhã acordo com o som de patas na varanda e o cheiro de café forte vindo da cozinha.

Paula, a cuidadora, me mostra tudo. “Já temos mais de trinta cachorros”, diz, coçando a orelha de um vira-lata sonolento. “Cada hóspede ajuda. Nem que seja um pouco.”
Deixo uma pequena doação, pensando em todos os rabos abanando de gratidão.
Na última manhã, pego uma bicicleta emprestada, o ar fresco e cortante, os campos dourados na luz do amanhecer. Duas pontes naturais—Ponte de Pedra I e II—esperam ali perto, escondidas nas dobras do terreno. A segunda ponte é de tirar o fôlego: enorme, com três arcos e uma claraboia que inunda a caverna de sol. A água corre embaixo, ecoando nas pedras. Fico na sombra do arco, pequeno diante da grandiosidade, sentindo o velho friozinho da descoberta.

Um menino da região indica o melhor lugar para nadar. “Aqui é mais fundo. Mas cuidado, escorrega.”
Agradeço a dica e mergulho, o frio me despertando na hora. Depois, seco ao sol numa pedra quente, o mundo reduzido ao som da água e ao grito distante de um gavião.
Paraúna é terra de perguntas—quem fez a muralha, como as pedras ganharam formas, por que as videiras vingam onde não deveriam. Mas também é terra de respostas simples: o calor dos moradores, o sabor do vinho local, o abanar de um rabo resgatado. Vou embora com poeira vermelha nos sapatos e a sensação de que as melhores histórias estão fora do mapa, entre a lenda e a vida cotidiana.
