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Do lounge silencioso do Rio ao agito de Londres: viagem executiva
$350 - $600/dia 5 min de leitura

Do lounge silencioso do Rio ao agito de Londres: viagem executiva

Uma viagem sensorial do lounge VIP silencioso do Rio aos terminais de Madrid e à correria de Londres, tudo pela experiência da classe executiva.

O silêncio chega a ser desconcertante. Entro no lounge VIP da American Airlines no Rio Galeão e o sossego me envolve por completo. O ar é fresco, com um leve aroma de café e desinfetante, e o único som é o zumbido suave do ar-condicionado. Meus passos ecoam no piso polido. Não há ninguém além de nós—apenas algumas poltronas vazias, revistas espalhadas sobre uma mesa baixa e o tilintar distante de copos vindo do bar. Sinto um leve constrangimento ao levantar o celular para filmar, o clique da câmera parece alto demais para o ambiente.

Lounge vazio no Aeroporto do Galeão, luz do sol entrando pelas janelas

Passeamos pelos diferentes cantos do lounge—um com poltronas de couro, outro com vista para o pátio onde aviões piscam ao entardecer. É um luxo estranho, esse vazio, e me pergunto se sempre é assim à noite. Os funcionários acenam discretamente enquanto passamos, as vozes baixas. “Vão de executiva?”, pergunta uma delas, e ao confirmar, ela sorri: “Então o espaço é todo de vocês.”


A caminhada até o portão C5 é longa, os corredores do aeroporto iluminados por luz fluorescente. Passamos pela fila prioritária, o sorriso treinado do agente e um “Boa viagem” nos conduzindo ao interior do avião. A cabine da classe executiva é um casulo de luz azul suave e conversas discretas. Meu assento reclina com um leve zumbido, virando cama ao toque de um botão. Um kit me espera: máscara de dormir, protetor labial, creme para as mãos, meias grossas e uma escova de dentes minúscula. Passo a mão pelo cobertor—mais grosso e macio do que qualquer um da econômica.

Antes da decolagem, a comissária aparece com uma bandeja de boas-vindas. “Champanhe ou suco de laranja?”, ela pergunta. Fico com o champanhe, as bolhas estalando na língua enquanto olho o cardápio: salada fria com tomate e cenoura, salmão com purê de batata e legumes, torta de maracujá ou crumble de frutas vermelhas. Há também vinhos e queijos espanhóis. O ronco dos motores aumenta e as luzes do Rio piscam pela janela enquanto subimos noite adentro.

O jantar vem em etapas. A salada está crocante, o pão—infelizmente—duro como pedra, mas o azeite é perfumado e o prato principal, salmão, está no ponto certo. Saboreio cada garfada, sabores vivos, purê aveludado, legumes no ponto. A sobremesa é um dilema: torta de maracujá ou crumble de frutas vermelhas. Mateus, que não liga para doces, me deixa ficar com as duas. A torta é ácida, o crumble doce e quentinho. O café vem com um quadradinho de chocolate espanhol, derretendo devagar na boca. As luzes se apagam, a cabine silencia e me estico, envolta no meu casulo, o travesseiro fresco no rosto. O sono vem fácil, embalado pelo motor.


Acordo com cheiro de café e croissants quentes. O café da manhã é servido uma hora antes do pouso: crepe com doce de leite e banana, ou omelete fofinho, com frutas, croissant, geleia e pãozinho. Escolho o crepe, o doce do caramelo e da banana me despertando suavemente. As janelas brilham com a primeira luz sobre a Espanha. Coloco o chip local antes de aterrissar, já pronta para me conectar assim que tocar o solo.

O Aeroporto de Barajas, em Madrid, é uma cidade à parte. O Terminal 4S se estende sem fim, vidro, aço e esteiras rolantes intermináveis. Desembarcamos no S42 e caminhamos, e caminhamos—passando por lojas, portões silenciosos, o ar com cheiro de perfume e café expresso. “Esse lugar não acaba nunca”, resmunga Mateus, e eu rio, o som se perdendo na imensidão do terminal.


O Netuno VIP Lounge é outro mundo—amplo, iluminado, com poltronas agrupadas e um buffet que muda conforme o horário. Fazemos check-in com um toque do cartão, o app Visa Airport Companion facilitando tudo. O café da manhã ainda está servido: café, croissants de chocolate, pãezinhos. Mateus analisa as cervejas, sorrindo. “Qual você pegou?”, pergunto. “A mesma do voo. É boa”, ele diz, erguendo o copo. Fico com o café, o amargor espantando o sono. Os funcionários já começam a montar o almoço, mas nosso voo para Londres já está embarcando. Juntamos as coisas, o gosto de chocolate ainda na boca, e seguimos para o portão S30.

Netuno VIP Lounge em Barajas, luz da manhã e café da manhã servido

O glamour some ao embarcar no voo curto para Londres. A econômica é apertada, joelhos encostados no banco da frente, o ar carregado de gente e ar reciclado. Nada de serviço de bordo—se quiser algo, tem que pagar. Vejo as nuvens passando, Madrid ficando para trás, Londres se aproximando. Duas horas depois, pousamos em Heathrow, a cidade se espalhando pela janela marcada de chuva.


Há um momento, parado no saguão de desembarque, em que a viagem me alcança. O gosto da torta de maracujá ainda na boca, a lembrança do lounge silencioso do Rio e dos corredores infinitos de Madrid piscando na mente. Viajar, no melhor sentido, é uma sequência de contrastes: silêncio e agito, luxo e desconforto, o conhecido e o novo. Pego a mochila, entro no fluxo da manhã londrina e deixo a cidade me engolir.