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Ronda: Alturas Impressionantes e Pueblos Brancos da Andaluzia
$60 - $120/dia 1-2 dias abr., mai., set., out. (Primavera e início do outono) 5 min de leitura

Ronda: Alturas Impressionantes e Pueblos Brancos da Andaluzia

Pontes de pedra, pueblos brancos e tapas sob penhascos: Ronda e Setenil de las Bodegas mostram a Andaluzia em sua essência mais bela.

O vento na beira do desfiladeiro é cortante, quase metálico, trazendo o aroma de tomilho selvagem e fumaça distante. Apoio-me na grade de ferro do Paseo de Blas Infante, os nós dos dedos esbranquiçados, e o mundo desaparece—centenas de metros de rocha pura, o rio Guadalevín um fio verde lá embaixo. O Puente Nuevo se estende sobre o abismo, grandioso, sua pedra dourada ao sol da manhã. Um casal ao meu lado murmura em português, as vozes baixas diante da imensidão. “Parece que a cidade está flutuando”, diz a mulher, e eu concordo, incapaz de desviar o olhar.

Puente Nuevo bridge spanning the gorge in Ronda, Spain

Ronda está a 720 metros acima do nível do mar, uma cidade dividida por um abismo tão profundo que parece engolir o som. Cidade velha e nova, unidas por esta ponte—Puente Nuevo, o cartão-postal da cidade, aquela imagem que você já viu centenas de vezes, mas só sente de verdade estando aqui, com os pés formigando de vertigem. A pedra é quente sob minha mão, aquecida pelo sol e áspera. Sigo o caminho pela borda do penhasco, passando pela Plaza de Toros, onde as touradas ainda ecoam nos ossos da cidade. A arena é um círculo de areia e sombra, seu museu prometendo histórias de toureiros e tradição por nove euros—um preço que avalio na palma da mão antes de seguir, satisfeito em ficar do lado de fora, vendo um garoto local contornar com o dedo a estátua de bronze do touro.


A Plaza de España pulsa com o tilintar de pratos e o burburinho das conversas. Cruzo a ponte, a cidade se desdobrando em camadas—paredes caiadas, telhados de terracota, o azul distante das montanhas. Do mirante, a vista é de tirar o fôlego: a cidade empoleirada em seu pedestal rochoso, o rio brilhando lá embaixo, uma pequena cachoeira serpenteando entre as ruínas. O ar cheira a poeira e flor de laranjeira. Encontro um senhor apoiado na bengala, olhos fixos no horizonte. “Vê aquelas pedras?”, diz ele, apontando para os antigos muros desmoronando no desfiladeiro. “Elas nos sustentam há séculos.”

Pergunto se ele já atravessou a ponte à noite. Ele sorri, um pouco nostálgico. “Só uma vez, quando era jovem. O vento era mais forte naquela época.”


A poucos minutos de Ronda, a estrada serpenteia por olivais e campos de papoulas, a terra ondulando em suaves tons de verde. Setenil de las Bodegas surge de repente, encaixada nas dobras da terra. Aqui, as casas não são apenas construídas sobre a rocha—elas estão dentro dela. A rua principal, Cueva del Sol, é uma fita de fachadas brancas sob um enorme teto de pedra. O ar é fresco, quase úmido, e o cheiro de alho frito vem de um bar encaixado sob o penhasco.

Setenil de las Bodegas white houses under rock overhang

Entramos em um bar de tapas, o teto tão baixo que consigo tocar a rocha com a ponta dos dedos. O barman desliza um prato de croquetas pelo balcão—crocantes, douradas, recheadas de jamón cremoso e um toque de noz-moscada. Há mini hambúrgueres também, e uma tigela de patatas bravas, o molho defumado e picante. “Gostou?”, ele pergunta, atento à minha reação. Concordo, boca cheia, e ele sorri. “Toda casa aqui é fresca no verão, quente no inverno. A rocha é nosso ar-condicionado.”

Lá fora, o sol queima na rua de cima, mas aqui, à sombra do penhasco, chega a ser frio. As duas ruas principais—Cueva del Sol e Cueva de la Sombra—têm nomes que refletem sua relação com o sol: uma clara e movimentada, a outra estreita e sombreada, o ar denso com cheiro de pedra úmida e pão fresco. Carros se espremem em curvas impossíveis, buzinas soam, e eu me encosto numa parede caiada, rindo com uma mulher que carrega uma cesta de laranjas. “É sempre assim”, ela diz, balançando a cabeça. “Vivemos entre a rocha e o céu.”


Setenil é um dos famosos pueblos blancos, os vilarejos brancos da Andaluzia. As paredes caiadas brilham à luz da tarde, tradição nascida da necessidade e da beleza—cal para manter as casas frescas, afastar o mofo, refletir o sol forte do sul. O efeito é deslumbrante, um mosaico de branco, azul e verde, o vilarejo descendo a encosta como dados lançados. Entro numa loja escavada na rocha, o teto áspero e frio acima da cabeça, prateleiras cheias de cerâmica e azeite. A vendedora me diz que a cal é barata, mas também é uma espécie de magia. “Ela mantém as casas vivas”, diz, “e os turistas chegando.”

Whitewashed houses and rocky cliffs in Setenil de las Bodegas


No fim da tarde, a luz suaviza, as multidões diminuem e os vilarejos entram em seu próprio ritmo tranquilo. Ronda e Setenil podem ser visitadas em um único dia, especialmente para quem vem de Málaga—um bate-volta fácil, daqueles que deixam os pés cansados e a cabeça cheia de imagens. Mas eu fico mais um pouco, deixando os últimos raios de sol dourarem a pedra, as paredes brancas brilhando em ouro. O ar está mais fresco agora, e o único som é o longe do rio no desfiladeiro. Penso no senhor da ponte, no sorriso fácil do barman, no jeito como as casas se agarram à rocha como se sempre estivessem ali. Alguns lugares são feitos para durar. Alguns lugares, você leva consigo muito depois de partir.