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Santiago: Gastronomia, Ruas e Surpresas em Um Dia de Sabores
$40 - $80/dia 5 min de leitura

Santiago: Gastronomia, Ruas e Surpresas em Um Dia de Sabores

Explore os sabores de Santiago: comidas de rua, doces e pratos locais do Centro à Lastarria e Patio Bellavista. Uma jornada gastronômica inesquecível.

A praça pulsa com mil passos, o ar denso com o cheiro de massa frita e escapamentos, risadas ecoando nas fachadas de pedra. Estou à beira da Plaza de Armas, o coração da cidade, onde pombos se espalham e senhores discutem xadrez. O sol é forte, refletindo na pedra clara da catedral, e em algum lugar próximo, o violão de um músico de rua se mistura ao barulho de um ônibus passando. A fome aperta, mas é a promessa de algo tipicamente chileno que me leva por uma galeria estreita: a galería de los completos.

Plaza de Armas, Santiago, movimentada com locais e turistas - Foto de Rafael Catalan

Lá dentro, o barulho é quase palpável—gritos, risadas, o chiado das salsichas. Me aperto no balcão do El Portal, um lugar simples e já um pouco gasto, onde o fundador trouxe a ideia do cachorro-quente dos Estados Unidos, mas que logo ganhou um toque chileno. Aqui, o completo é rei: um cachorro-quente, sim, mas coroado com uma tricolor de tomate, abacate cremoso e uma nuvem de maionese, as cores da bandeira italiana. O pão é macio, a salsicha tem um tempero diferente do que espero, o abacate é fresco e suave. Peço um suco de frutilla—morango, vivo e doce, daqueles que parecem ter sido colhidos hoje cedo. A mulher atrás do balcão sorri ao entregar. “Você não é daqui”, diz, sem maldade. Balanço a cabeça, boca cheia. “Mas eu poderia me acostumar com isso.”

Ela ri, limpando as mãos no avental. “Então, da próxima vez, experimente o Dominó. O pão deles é mais macio.”


De volta à rua, a cidade pulsa. Vendedores oferecem mote con huesillo em carrinhos surrados, o xarope dourado brilhando ao sol. Entrego algumas moedas—mal dá um dólar—e seguro o copo plástico, seu conteúdo estranho e convidativo: grãos de trigo, um pêssego em calda e um néctar doce com canela. O primeiro gole é um choque de açúcar e especiarias, o trigo é macio, o pêssego desmancha. É quase doce demais, mas o frescor alivia o calor. “Refrescante, né?” pergunta um homem, vendo minha hesitação. “Mas tem que gostar bem doce.”

Concordo, deixando o xarope envolver a língua. “É como uma sobremesa no copo.”

Ele sorri. “Exato. Melhor ainda depois de subir o Cerro San Cristóbal.”


O ritmo muda quando entro em Lastarria, bairro onde a pedra antiga dá lugar a ruas arborizadas e ao tilintar de copos nas varandas dos cafés. Aqui, o almoço é ritual, e o menu do dia é tradição. No Tiprelibre, restaurante peruano famoso pelo ceviche e pisco, sento entre locais e alguns viajantes. O menu é fixo: sopa de carne com batatas e cenouras, seguida de peixe branco com salada. As porções são modestas, os sabores limpos, o pisco sour forte e cítrico. Observo uma família na mesa ao lado debatendo o pisco peruano versus o chileno, as risadas se sobressaindo ao barulho dos talheres.

Bairro Lastarria, Santiago, com ruas arborizadas e cafés ao ar livre - Foto de María Laura Gómez Carretero

Depois, sigo o cheiro de batata frita até o Pachecos, lojinha onde cones de batata são distribuídos como prêmios. As batatas são crocantes, com casca, e escolho as minhas com bacon e parmesão, o queijo derretendo nas fritas quentes. A atendente comenta: “A maioria coloca creme de alho, mas você pode montar do seu jeito.” Como em pé, o sal e a gordura equilibrando a doçura da cidade.


Em Santiago, a sobremesa nunca está longe. Na Gelateria Montana, escondida numa galeria perto da avenida principal, os balcões brilham com um arco-íris de sabores. Pistache, vinho branco com passas e muitos outros que nem sei pronunciar. A atendente, simpática e paciente, me deixa provar quantos quiser. Fico com o pistache—cremoso, intenso, incrivelmente suave. “Mesmo no inverno, tomamos sorvete”, ela diz, entregando o cone. “É tradição.”


O entardecer chega e o ritmo da cidade muda de novo. O Patio Bellavista brilha com néon e risadas, um labirinto de restaurantes e bares que se espalham pelo calçamento. Aqui, as opções se multiplicam: sushi, pizza, clássicos chilenos, tudo sob luzes penduradas. Sento no Los Buenos Muchachos e peço uma empanada de pino, a mais tradicional—carne, cebola, azeitona e um pedaço de ovo cozido, tudo envolto em massa dourada. O recheio é saboroso, a massa crocante, o cominho marcante. “Tem que comer quente”, recomenda o garçom, “senão não é a mesma coisa.”

Patio Bellavista, Santiago, à noite com restaurantes animados e luzes - Foto de Kevin Falenda

Fico ali, vendo grupos de amigos se reunirem, o ar tomado pelo cheiro de carne assada e o burburinho das conversas. Mais tarde, no Vendetta, chega uma lasanha borbulhante na panela de ferro, o queijo dourado e o molho encorpado. Queimo a língua na primeira garfada, mas vale a pena—camadas de massa, carne e bechamel, cada pedaço um pequeno conforto.


Quando volto para a noite, a cidade parece mais suave, os contornos borrados pela comida e pelo cansaço. Santiago se entende melhor pelos sabores: o azedinho do pisco, a doçura do mote con huesillo, o calor de uma empanada recém-saída do forno. Lembro da mulher do balcão, seu riso fácil, e como os estranhos aqui sempre têm um conselho, um sabor, uma história para compartilhar. O dia termina não com uma lista, mas com uma sensação de plenitude—de estômago, de coração, de memória.