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Festival das Lanternas em Chiang Mai: Magia e Tradição
$80 - $180/dia 5 min de leitura

Festival das Lanternas em Chiang Mai: Magia e Tradição

Descubra a magia do Festival das Lanternas em Chiang Mai: luzes flutuantes, tradições budistas e uma noite inesquecível de desejos e emoções.

A van sacoleja pelo último trecho da estrada, janelas embaçadas pelo hálito de uma dúzia de desconhecidos. Alguém aponta para um Mickey Mouse de pelúcia costurado no encosto do banco, olhos esbugalhados, e o grupo cai na risada. Lá fora, o céu é de um azul pálido e expectante, daquele tipo que promete milagres e chuva. Estamos a uma hora e meia de Chiang Mai, seguindo para um campo onde, esta noite, o céu vai se acender em luz.

Um mar de lanternas brilhantes subindo ao céu noturno no Festival Yi Peng, Chiang Mai

O espaço do festival se espalha em um mosaico de zonas coloridas—amarela, verde, vermelha, azul e, no centro, a cobiçada área elite. Nossos crachás dizem “premium”, o que significa que estamos perto o suficiente do palco para ver o brilho de expectativa nos rostos, mas não tão próximos a ponto de estarmos acima de tudo. O ar é denso com cheiro de grama e incenso, e o som distante dos tambores se mistura ao burburinho da multidão que chega. São pouco mais de quatro horas, e, por enquanto, a entrada é tranquila—sem filas, sem caos, apenas um convite suave ao coração da celebração.


Fileiras de barracas de comida chamam a atenção, cada uma um festival de cor e vapor. Tem curry massaman de carne, espaguete ao molho de tomate adocicado e uma bancada de saladas tão verdes que quase brilham. Pego um copo de sopa de milho, aroma amanteigado e quente, e me junto ao fluxo lento dos visitantes. O frango frito é crocante, o brownie denso e pegajoso, e as bebidas—sucos em tons neon, sem álcool, sem refrigerante—são um aceno às raízes budistas do festival. “Aqui não tem cerveja”, sorri um vendedor, me entregando uma garrafa d’água. “Só bons desejos.”

Às seis, as filas para bebidas já serpenteiam até a entrada, mas se você for até o fim da área premium, encontrará mesas vazias e sobremesas intocadas. Minhas sandálias estão cobertas de lama, a barra do meu vestido branco já manchada de marrom. “Próxima vez, sapato fechado”, resmungo, e uma mulher ao lado ri, levantando os próprios pés enlameados. “Faz parte da bênção”, ela diz. “Assim você vai lembrar por mais tempo.”


Além da comida, um ritual mais silencioso acontece. À beira de um pequeno lago, as pessoas se reúnem para o Loi Krathong—um festival paralelo de barquinhos de flores flutuantes. Cada krathong é uma pequena jangada de folhas de bananeira e flores, com uma vela no topo. A fila para lançar um é longa, um passo lento de esperança e impaciência. “Você tem que deixar as coisas ruins irem embora”, explica uma moradora, entregando um krathong à filha. “E pedir coisas boas.”

Observo enquanto ela acende a vela, a chama vacilando na brisa. “Às vezes apaga antes de chegar na água”, ela dá de ombros. “Mas o desejo ainda vale.” Mais tarde, encontramos um canto mais tranquilo, uma curva escondida do rio onde não há fila e o ritual parece íntimo. Minha amiga Jess acende sua vela, sussurra algo que não ouço e solta seu krathong na água. “Adeus, má sorte”, ela diz, e o barquinho gira, deixando um rastro de faíscas.

Krathongs—barquinhos de flores com velas—flutuam no lago à noite durante o Loi Krathong


A noite cai com uma rapidez teatral. A multidão se reúne nas áreas de assento, cada pessoa segurando duas lanternas de papel em um saco plástico. Instruções ecoam em tailandês, inglês e português, as palavras se sobrepondo em um coro de expectativa. “Esperem pelo sinal”, diz um voluntário, tocha na mão. “Vamos juntos.”

A primeira lanterna é desajeitada—dedos tropeçando no arame, o papel tremendo ao vento. Mas então o fogo pega, o balão de seda infla e a contagem começa. Três. Dois. Um. Mil lanternas sobem de uma vez, douradas e trêmulas, e o céu vira um rio de luz. Suspiros percorrem a multidão. “Meu Deus”, alguém sussurra ao meu lado, e eu também sinto—a admiração, o silêncio, a sensação de que, por um instante, tudo é possível.

Multidão soltando lanternas brilhantes no céu noturno do festival

A chuva começa assim que as últimas lanternas desaparecem nas nuvens. Primeiro, uma garoa suave, depois um aguaceiro, tamborilando em capas plásticas e cabeças descobertas. Corremos para as vans, risadas e reclamações misturadas no ar molhado. O estacionamento é um mar de luzes vermelhas, lama e rostos resignados. “Quarenta minutos e não saímos do lugar”, alguém reclama. “Faz parte da experiência”, responde outro, e nos acomodamos para o longo e lento retorno a Chiang Mai.


Mais tarde, quando a van finalmente avança, encosto a testa no vidro. Os campos agora estão vazios, as lanternas se foram, mas a lembrança permanece—um céu em chamas, desejos sussurrados na escuridão, o gosto do frango frito e a sensação de lama entre os dedos dos pés. O festival é imperfeito: a comida é ok, os banheiros nem tanto, as multidões, a chuva e o trânsito interminável são reais. Mas no momento em que as lanternas sobem, nada disso importa. Por um instante sem fôlego, você faz parte de algo luminoso, algo que flutua acima da bagunça, da lama e do cotidiano. E isso, penso, vale cada passo encharcado.

Detalhe de mãos acendendo uma lanterna de papel, rostos iluminados pela expectativa