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Shimla de Trem: Viagem Familiar no Himalayan Queen
$100 - $350/dia 3-5 dias mar., abr., mai., jun., set., out., nov. (Primavera e outono) 5 min de leitura

Shimla de Trem: Viagem Familiar no Himalayan Queen

Viaje no trem histórico Himalayan Queen até Shimla e reviva memórias familiares entre bazares, arquitetura colonial e paisagens do Himalaia.

O que primeiro chama atenção não é a vista, mas o cheiro. Massa frita, cominho torrado e o aroma metálico dos trilhos estreitos. No ponto de Barog, o vendedor nem levanta os olhos ao entregar uma samosa fumegante pela janela do trem. Passo algumas rúpias, o papel engordurado quase queimando meus dedos no ar frio da montanha. A massa se desfaz na boca, apimentada e escaldante. Meus irmãos, Andrew e Will, já estão mergulhados em um enigma de palavras cruzadas no vagão atrás, tradição herdada de quem, na verdade, é o motivo de estarmos entre o chão e as nuvens.

Estamos no Himalayan Queen, o famoso "toy train" que serpenteia por 85 km e mais de quatro horas de subida até as nuvens de Shimla. Saímos do caos abafado de Nova Délhi, passamos pelo concreto de Chandigarh e embarcamos nessa máquina do tempo em Kalka. A cada metro dos mais de dois mil metros de ascensão, a paisagem muda. O ar poluído das planícies some, dando lugar a uma brisa revigorante com cheiro de cedro e neve distante.

O histórico Himalayan Queen serpenteando pelas montanhas cobertas de cedros em direção a Shimla

Passo a mão no couro gasto do assento. Minha avó fez esse mesmo trajeto. Nascida e criada em Shimla, antiga capital de verão da Índia britânica. No colo, um diário frágil de 1944, capa de couro, páginas finas e caligrafia caprichada. Não é só uma viagem: é uma busca para dar cor e som às histórias que moldaram nossa infância.


Shimla surge devagar, grudada nos morros do Himalaia, com telhados desbotados e vales verdes que ficam rosados ao pôr do sol. Descemos na estação e seguimos ao Oberoi Cecil, nosso lar por alguns dias. O ar rarefeito, fresco na pele, e o silêncio pesado são um alívio após o bombardeio sensorial das planícies.

No diário de 1975, minha avó anotou que a estadia custou £8,90, incluindo refeições. Hoje, o preço acompanha o status de hotel histórico, mas entrar pelas portas de madeira é voltar cem anos no tempo. O hotel começou como chalé, onde um jovem Rudyard Kipling passou cinco verões fugindo do calor de Lahore. Passo a mão no corrimão de mogno, quase esperando ver Kipling numa esquina. Abro a janela para o vento da montanha, atento aos macacos que dominam os telhados. Já fui avisado: não deixe nada exposto, ou vai disputar com um deles. Uma parte de mim até espera por isso.


Na manhã seguinte, Shimla acorda ao som de sinos de templo e vassouras no calçamento. Subimos a ladeira até o Viceregal Lodge. Por sessenta anos, um quinto da humanidade foi governado de uma sala desse monumento vitoriano. Pesado no topo da serra, parece deslocado, mas a Índia lida com esses símbolos coloniais de forma pragmática: o prédio virou o Indian Institute of Advanced Study. Hoje, estudantes passeiam pelos jardins onde Gandhi caminhou—ele, que recusava ser carregado em riquixá, preferindo subir as ladeiras a pé.

A fachada amarela da Christ Church destacando-se no The Mall em Shimla

Descemos ao The Mall, coração pulsante de Shimla. O bazar parece parado no tempo, com cheiro de milho assado, chai borbulhante e a umidade da mata próxima. No fim da rua, a Christ Church, fachada amarela contra o céu azul.

"A bisa casou ali", diz Andrew, protegendo os olhos do sol.

Concordo, folheando o diário de 1975. "A vovó escreveu sobre um culto aqui", leio. "Ela disse que foi 'um pouco longo'—o que, no inglês dela, quer dizer interminável. Quatro horas de sermão, alternando entre hindi e inglês."

Rimos, o som se perdendo no vale. Seguimos as pistas dela até o Gaiety Theatre, lendo suas críticas detalhadas das peças locais e nos perguntando como um lugar pode guardar tantos fantasmas com tanta delicadeza.


Mas falta um fantasma: a casa onde ela cresceu.

Sem endereço, só um nome—Club Cottage—e uma foto antiga: telhado inclinado, varanda marcante. Sabemos que fica nos terrenos do antigo United Services Club. Subimos pelas trilhas fechadas atrás das ruínas, o ar úmido e cheiro de pinho molhado. As ruas viram becos sem saída. Milhares de casas espremidas na encosta, um labirinto de ferro ondulado e concreto desbotado.

Um senhor para de varrer numa escada estreita, olhando nossa luta contra o ar rarefeito.

"Vocês não são daqui", diz, apoiado na vassoura. Não é pergunta.

"Não", admito, recuperando o fôlego. "Procuramos essa casa." Mostro a foto. "Minha avó morou aqui. Achamos que se chama Club Cottage."

Ele examina a imagem, franzindo a testa. "Só tem a foto? Não sabem o endereço?"

"Só sabemos que é perto do clube antigo", diz Will, enxugando o suor.

O homem devolve a foto, balançando a cabeça. "Tem muitas casas aqui. Podem subir por ali, mas é longe." Aponta um caminho quase vertical sumindo entre as árvores.

Um chalé tradicional em Shimla entre as árvores, lembrando o Club Cottage histórico

Seguimos, pernas ardendo, altitude pesando no peito. Leio a descrição dela: Quase impossível chegar, estrada bloqueada. O jardim é só um gramado. Acrescentaram uma varanda verde, o resto está igual.

Andamos em círculos por uma hora. A frustração cresce. Caçamos um fantasma provavelmente demolido há décadas.

Até que Will para, sem fôlego.

"Olha", sussurra, apontando entre as árvores.

Lá está. Encaixada no morro, igual à descrição. A varanda verde. As janelas da foto. Descemos por um barranco enlameado, desviando de fezes de macaco, até a cerca. A casa está vazia, trancada, tomada pela montanha e vigiada por macacos indiferentes.

Apoio a mão no portão enferrujado, quente do sol. No jardim, hortênsias selvagens florescem—exatamente como as que ela cultivava na Inglaterra até morrer.

Chega um momento em que o último elo com a infância se rompe. Ficamos à deriva, buscando como nos ancorar. Ali, no ar de cedro do Himalaia, ouvindo o vento nas hortênsias, percebo: ela nunca se foi. Só nos deixou essa montanha, confiando que um dia, saberíamos voltar para casa.