Ushuaia: Onde Comer Bem no Fim do Mundo
Descubra os sabores autênticos de Ushuaia: Merluza Negra, centolla, sopa de vieiras e chocolates artesanais. Guia prático para comer bem na Patagônia.
Índice
- O Armazém Histórico
- Ruas de Ushuaia
- Tesouros das Águas Profundas
- Vinhos da Patagônia
- Herança das Pampas
- Doces Conclusões
O Armazém Histórico
O cheiro de madeira antiga, sal marinho e caldo cremoso me envolve assim que empurro as portas pesadas. O vento do Canal de Beagle sopra forte o dia inteiro, sacudindo os vidros, mas dentro do Ramos Generales o clima é acolhedor. As portas de madeira exigem força, abrindo pontualmente ao meio-dia, quando os locais começam a chegar para o almoço. O espaço já foi um armazém, e parece que o tempo ficou preservado nos objetos antigos nas paredes. Sento numa mesa de madeira gasta, aquecendo as mãos quase congeladas numa tigela fumegante de sopa de vieiras. O caldo é surpreendente—salgado, adocicado, com creme e um toque de pimenta branca. Os cerca de dez dólares pagos por essa refeição parecem pouco diante do conforto. Se você acha que comer na Argentina é só milanesa e carne na brasa, está certo—mas só no continente. Aqui em Ushuaia, no extremo do mapa, é o mar que dita o cardápio.
Ruas de Ushuaia
Volto para a rua e o frio logo corta o rosto. O centro de Ushuaia é um mosaico de telhados coloridos diante das montanhas Martial, sempre com neve nos picos. Caminhar por essas ladeiras é ouvir o cascalho sob os pés, o ruído distante dos motores do porto e o espanhol apressado dos moradores, sempre acelerado pelo vento. Ergo o colarinho e sigo contra as rajadas.

É nesse cenário duro que descubro talvez o melhor fruto do mar da minha vida: a Merluza Negra. Esse peixe de águas profundas, difícil de encontrar e ainda mais de pescar, habita os mares gelados do sul. Em outros lugares, é artigo de luxo; aqui, é conexão direta com o território.
Minha primeira experiência foi no restaurante do hotel Los Acebos, servido assado com legumes de inverno, desmanchando no garfo. Mas é no salão rústico e náutico do tradicional Volver que o peixe realmente me surpreende.
Tesouros das Águas Profundas

Conseguir uma mesa no Volver normalmente exige reserva, mas hoje dou sorte e sento no balcão.
"Ele vive fundo", diz o garçom ao servir um prato de ardósia com tiraditos—fatias finas e translúcidas de Merluza Negra, cruas e levemente defumadas. "Lá no escuro gelado. Por isso a gordura é tão rica. É o que mantém ele vivo."
Nunca provei nada igual. O peixe praticamente derrete na boca, com sabor delicado de fumaça e mar gelado. É amanteigado, quase doce, com textura tão macia que faz sashimis comuns parecerem simples. O Volver também é famoso pela centolla, o caranguejo gigante da Patagônia, servido em cascas vermelhas impressionantes, exalando aroma de iodo e maresia.
Vinhos da Patagônia
Nenhuma refeição argentina se completa sem vinho. Em uma sala de degustação próxima, taças tilintam enquanto experimentamos vinhos patagônicos de clima frio e altitude elevada. O guia serve um Pinot Noir com aroma de terra úmida e frutas vermelhas. Os taninos são suaves, a acidez perfeita para equilibrar a gordura da Merluza Negra. É uma aula de terroir: os extremos da Patagônia produzem sabores elegantes e únicos.

Herança das Pampas
Mas a tradição do continente ainda ecoa aqui. Em uma estância familiar nos arredores, encontro o clássico asado argentino. O cheiro de lenha e gordura no fogo chega antes da carne. Cortes de bife de chorizo e ancho vêm ao ponto, com crosta de sal grosso e acompanhados de chimichurri fresco. No ambiente rústico, ouvindo o fogo crepitar, é impossível não se sentir em casa.
Doces Conclusões
Essa dualidade—carnes rústicas e frutos do mar delicados—me lembra de Buenos Aires, onde provei o Rogel: camadas finas de massa crocante, intercaladas com doce de leite argentino e cobertas com merengue italiano tostado. A textura crocante, o caramelo pegajoso e o merengue macio criam uma sobremesa inesquecível, que superou até o alfajor.
Mas Ushuaia tem seus próprios remédios para o frio. Na última tarde, busco refúgio na Moala, pequena chocolateria artesanal no centro. O aroma de cacau torrado e baunilha aquece o ambiente. Provo trufas densas, que derretem devagar na boca.
De volta à rua, com uma caixa de chocolates no bolso e o cachecol apertado, vejo o céu sobre o Canal de Beagle escurecendo. Ushuaia faz tudo ser mais intenso—o frio, as paisagens, a solidão. Mas é à mesa que esse extremo faz sentido. Viver no fim do mundo é transformar cada refeição em vitória contra o frio: um fogo aceso na escuridão.
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