Zermatt, Suíça: Como Ver o Matterhorn e Viver os Alpes
Descubra Zermatt, Suíça: dicas para ver o Matterhorn, explorar chalés históricos, usar o trem Gornergrat e aproveitar o melhor dos Alpes com economia.
Índice
- Chegada ao Cervo
- História de Hinterdorf
- Subida a Sunnegga
- Matterhorn Glacier Paradise
- O Trem Gornergrat
As portas pesadas do Cervo Mountain Resort se fecham atrás de mim, abafando imediatamente o som da neve fresca sob as botas. São cinco e meia da tarde, o céu alpino já escurecendo, e o ar carrega um cheiro intenso de pinho queimado, lã úmida e gelo derretendo. O recepcionista sorri, aquecendo o ambiente gelado das montanhas.
"Chá para esquentar?" oferece, apontando para um samovar fumegante. "Ou prefere uma taça de Prosecco?"
Escolho o espumante, que combina com o frio lá fora. O hotel é um contraste interessante: arquitetura moderna, mas colado à pista de esqui. Do lado de fora, a piscina aquecida solta vapor grosso no crepúsculo gelado. Passo a mão nas paredes de madeira rústica do lobby, sentindo o calor vindo do chão. Sem roteiro para esta noite, aproveitamos para nos adaptar à altitude e descer pelo elevador público que liga nosso refúgio silencioso ao centro movimentado da vila.

O ar em Hinterdorf—o bairro mais antigo de Zermatt—queima no rosto. O cheiro de fumaça de lenha é mais forte aqui, entre os chalés escurecidos pelo sol desde o século XV. Caminhar por esses becos estreitos parece entrar num cenário medieval. As casas são minúsculas, apoiadas umas nas outras como montanhistas exaustos.
"Está olhando para as pedras," diz uma voz.
Um senhor de suéter grosso para ao meu lado no caminho gelado. Ele aponta para as pedras redondas entre as estacas de madeira e a base das casas.
"Para manter o nível?" arrisco, vendo minha respiração branca no ar.
Ele ri, um som rouco que ecoa na madeira. "Ratos. Eles não conseguiam passar pelas pedras. Em cima vivia a família, embaixo guardavam o grão. Ninguém dividia comida de inverno há quinhentos anos."
Ele indica uma placa de homenagem próxima. "Ali era um guia famoso. Subiu o Matterhorn mais de trezentas vezes. A última, aos noventa anos. Esse é o sangue do vale."
O dia amanhece com sol forte refletindo na neve. O passe diário de esqui, por 74 francos suíços, normalmente exige fila e espera, mas o Ikon pass no bolso nos permite entrar direto. Em minutos, já estamos no funicular, subindo pela rocha.
Quando as portas abrem em Sunnegga, a 2.288 metros, a luz impressiona. E lá está ele: o Matterhorn.

Não parece uma montanha, mas um ponto de exclamação geológico, dominando a fronteira entre Suíça e Itália. Lá embaixo, iniciantes se arriscam no Wolli Park. Hoje não viemos para esquiar, mas para sentir a verticalidade dos Alpes. Pedimos chocolate quente no terraço ensolarado do restaurante da estação, aquecendo as mãos nas canecas e admirando o pico impossível.
A gôndola vibra enquanto subimos rumo ao Matterhorn Glacier Paradise, o teleférico mais alto da Europa. Um aviso alerta: crianças menores de três anos não devem subir, devido à altitude extrema. Ao chegar a 3.883 metros, entendo o motivo.
O ar é rarefeito, cada passo exige esforço, uma leve dor de cabeça aparece. Parece subir escadas respirando por um canudo. Mas basta olhar para fora: estamos acima de quarenta geleiras alpinas. Em dias claros, dá para ver o Mont Blanc.
Descemos ao Glacier Palace, um túnel de gelo eterno. O frio é intenso, atravessa as botas.
"Agora sei como se sentem os nuggets congelados," brinca meu parceiro, abafado pelo cachecol.
As paredes de gelo brilham em azul, com silêncio profundo. Saindo para a luz, buscamos abrigo no restaurante do topo. Abrimos aquecedores químicos para as mãos e devoramos batatas fritas salgadas com vinho tinto. A mistura de gordura quente, vinho encorpado e ar gelado é um choque sensorial.

Se o teleférico desafia a vertigem, o Gornergrat Railway é um exemplo de engenharia lenta e precisa. O trem vermelho sobe rangendo pela montanha, partindo a cada 25 minutos até os 3.089 metros.
No topo, o Kulm Hotel—o mais alto da Europa—parece uma fortaleza solitária, com cúpulas de observatório refletindo o sol. Encosto na grade de observação, o metal gelando os braços. Uma placa divertida aponta: Rio de Janeiro, 9.220 quilômetros.
Olhando para os picos caóticos ao redor, penso na força que criou esse silêncio: milhões de anos atrás, placas tectônicas se chocaram aqui, elevando essa rocha ao céu. Metade da montanha é africana, metade europeia.
Puxo o casaco contra o vento. Os Alpes não ligam para fronteiras ou relógios. Eles apenas existem, vastos e indiferentes, esperando a próxima neve cair.
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