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Ilhéus a Itacaré: Roteiro pela Costa do Cacau na Bahia
$60 - $150/dia 5-7 dias set., out., nov., dez., jan., fev., mar. (Primavera/Verão) 5 min de leitura

Ilhéus a Itacaré: Roteiro pela Costa do Cacau na Bahia

Explore a Costa do Cacau: de Ilhéus a Itacaré, passando por fazendas de cacau, cachoeiras e praias selvagens no litoral da Bahia.

O calor aqui é físico. Ele se acomoda nos ombros assim que as portas automáticas do aeroporto se abrem, um peso úmido e pesado que cheira a maresia e asfalto molhado. Estou na beira da Praia do Sul, onde a areia dourada se estende sem fim, pontilhada pelos telhados de palha das barracas. A pista de pouso está a apenas dez minutos, mas o rugido dos aviões já foi engolido pelo som ritmado do Atlântico.

Pego o carro alugado na hora. Nesta parte da Bahia, liberdade tem quatro rodas. Você até poderia ficar parado, mas a magia está no movimento—entre o peso histórico de Ilhéus e o espírito selvagem de Itacaré, ao norte. Mas antes de subir a costa, preciso provar a história.

Areias douradas e ondas na Praia do Sul em Ilhéus


Ilhéus foi construída sobre o cacau. Não tem como escapar disso. Sigo para o interior, rumo à Fábrica de Chocolates Mendoá, onde o ar troca o sal por algo mais profundo, azedo e doce ao mesmo tempo. É o cheiro da fermentação, denso e marcante.

Caminhando pela plantação, aprendo sobre o sistema Cabruca. Parece menos agricultura e mais uma parceria com a floresta. Os cacaueiros crescem à sombra da Mata Atlântica, protegidos do sol forte por gigantes que estão aqui há séculos.

"A fermentação muda a cor de roxo para marrom", explica o guia, abrindo um grão cru com o polegar. "É aí que nasce o sabor."

Dentro da fábrica, o aroma se intensifica até virar aquele cheiro rico de chocolate que todo mundo conhece. Provo um pedaço de chocolate 70%. É complexo, frutado e terroso—bem diferente das barras doces de supermercado. Tem gosto da terra onde estou.


De volta ao litoral, sigo atrás da água. A Praia dos Milionários ganhou esse nome por causa dos barões do café e do cacau que construíram suas mansões aqui, mas hoje a riqueza pertence a quem tem uma toalha e uma tarde livre. A maré sobe, enchendo as piscinas naturais de água espumante que logo aquece ao sol.

Dirijo mais um pouco até Cururupe, um cenário marcante onde o rio escuro, tingido de tanino, se mistura ao mar turquesa. Já é quase meio-dia e o sol não dá trégua. Paro numa cabana à beira do rio, a Cabana do Cais, para comer peixe grelhado. Existe um prazer especial em comer frutos do mar com os pés ainda cheios de areia, lavando o sal na água doce antes de voltar para a estrada.

Quando a noite cai, estou na Baía de Sapetinga. O pôr do sol aqui é famoso com razão. O céu fica roxo e laranja, recortando os barcos que balançam no porto. É a calmaria perfeita antes da jornada rumo ao norte.

Coqueiros emoldurando o litoral na Praia do Sul


A estrada para Itacaré corta um túnel de verde. No meio do caminho, paro na Cachoeira do Tijuípe. Pago os vinte e cinco reais da entrada—um preço pequeno pelo choque da água gelada que me espera. A queda não é só um fio; é uma cortina larga cercada de bromélias exuberantes. Vejo gente de caiaque na piscina abaixo, mas me contento em boiar, lavando o calor da viagem.

Quando finalmente chego aos arredores de Itacaré, faço um último desvio para a praia de Itacarezinho. O nome significa "Pequena Itacaré", mas a praia é imensa. A descida é íngreme. Você pode pagar cinquenta reais para descer de carro, mas prefiro deixar o carro no alto e ir a pé. São vinte e cinco minutos, mas a expectativa só aumenta a cada passo. Quando as árvores finalmente abrem, a vista impressiona—uma linha infinita de areia branca e coqueiros, mais selvagem e rústica que as praias de Ilhéus.


A fome me leva ao centro de Itacaré, num lugar chamado Tia Deth. Ela alimenta moradores e viajantes desde 1994. Peço a moqueca, que chega borbulhando na panela de barro, laranja pelo dendê e perfumada com leite de coco e coentro.

O filho dela, Tiquinho, traz uma bandeja de doces. A cozinha é caótica, mas alegre, preparando-se para a festa de Iemanjá, Rainha do Mar.

"Estão preparando as oferendas?" pergunto, de olho nas pilhas de flores brancas e doces.

"Para a mãe das águas", Tiquinho confirma, apontando para um novo lote de doce de leite.

"Posso provar?" peço.

"Direto da fazenda", Tia Deth sorri, me entregando um quadradinho. "É doce, para ela trazer boas marés."

A mousse de cupuaçu na sobremesa é ácida e cremosa, o contraponto perfeito à moqueca encorpada. Parece até uma bênção.

A faixa de areia e águas azuis da Praia do Sul


Me hospedo no Ecoporan Charme e Spa, um hotel que parece ter brotado da mata em vez de ter sido construído sobre ela. Tem piscinas e paredes de escalada, mas só preciso do banho e do silêncio da varanda para recarregar.

A noite em Itacaré tem outro ritmo. Caminhando pela rua principal, o som do berimbau atrai uma roda. Uma roda de capoeira se forma, corpos girando e chutando numa dança fluida, meio luta, meio ritual. A energia contagia.

Termino a noite no Restaurante Saravá, com um drinque de gin e limão siciliano. A cidade pulsa, cheia de viajantes e moradores misturados no ar quente. Ilhéus foi a história, o cheiro intenso de cacau e barões. Itacaré é o pulso, a floresta viva e o mar. Sentado aqui, ouvindo o som distante das ondas, percebo que não olhei para o relógio o dia inteiro.