Ligúria: Entre Vinhedos, Mar e Cidades Históricas
Explore Ligúria: dos vinhedos verticais de Cinque Terre às ruelas de mármore de Gênova. Descubra a Riviera Italiana além dos cartões-postais.
Índice
- O Mundo Vertical de Cinque Terre
- Gênova: O Coração Autêntico
- Poetas, Peregrinos e o Mar
- Glamour da Riviera e Baías Escondidas
O cheiro é o primeiro a te atingir. Não é só o mar; é um aroma complexo e intenso de fumaça de carvão, alho frito e o perfume adocicado e resinoso das agulhas de pinheiro aquecidas pelo sol. O senhor atrás do carrinho de focaccia na estação nem levanta os olhos enquanto corta um pedaço de pão coberto de cebola, embrulhando-o em papel manchado de óleo. O apito do trem ecoa, reverberando nas falésias que se erguem logo atrás da plataforma.
O trem sacoleja pela costa, cortando túneis e explodindo de volta à luz ofuscante do Mediterrâneo. Aqui não é a Toscana suave dos guias de viagem. Esta é uma terra dura, um mundo vertical onde a gravidade é adversária constante e a beleza nasce de uma luta secular entre a rocha e o mar.

Desço do trem em Manarola, uma das cinco vilas que compõem Cinque Terre. O calor é físico, pesa nos ombros, mas a vista faz esquecer o desconforto. As casas são uma confusão de tons pastel — ocre, rosa, laranja queimado — agarradas à rocha negra como cracas. Começo a subir em direção aos vinhedos. Não dá para entender este lugar de baixo; é preciso conquistá-lo com as pernas.
As trilhas aqui, conectando vilas como Vernazza e Corniglia, são artérias estreitas repletas de caminhantes. Mas, se você se afasta só um pouco, vê o verdadeiro milagre da engenharia: muros de pedra seca, milhares de quilômetros deles, se fossem alinhados, sustentando a terra.
“Você está olhando para o vinho, mas devia olhar para o muro”, diz uma voz. Viro e vejo um homem de pele curtida, tesoura de poda na mão. Ele percebe meu olhar para as uvas em terraços.
“Parece um jardim”, comento.
Ele ri, um som seco e rouco. “Não é jardim. É batalha. A chuva quer levar a montanha para o mar. Construímos os muros para segurar. O vinho? O vinho é só o sangue da montanha.”
Ele me entrega uma pequena uva, ainda áspera. O sabor é mineral e intenso. Ele enxuga a testa e aponta para a estação abaixo. “A maioria pega o Cinque Terre Express. Fácil, né? Dezoito euros pelo cartão, trens o dia todo, trilhas inclusas. Mas perdem o cheiro da poeira.”
Sigo o conselho e continuo andando, suando pela poeira até Monterosso, onde o mar finalmente se abre em um abraço turquesa.
Deixando o drama vertical das cinco vilas, sigo ao norte rumo a Gênova. Se Cinque Terre é o rosto que a Ligúria mostra ao mundo, Gênova é sua alma. Uma cidade de contrastes marcantes. Me perco de imediato nos caruggi, vielas medievais tão estreitas que o céu é apenas uma fita azul lá no alto. O clima é íntimo, quase secreto. O ar é fresco, com cheiro de pedra úmida e manjericão recém-colhido.
Saio das sombras do centro antigo para a luz intensa da Piazza De Ferrari. De repente, a grandiosidade de “La Superba” — a Soberba — é inegável. Os Palazzi dei Rolli, palácios renascentistas, são testemunhas silenciosas de um tempo em que a cidade bancava reis. Entro no Palazzo Rosso no auge do calor da tarde. A arte impressiona, mas é a vista do terraço que me prende: um mar de telhados cinza-ardósia descendo até o porto moderno, onde cruzeiros imensos dividem espaço com barcos de pesca desgastados.

Seguindo para leste, além do cenário industrial de La Spezia — um polo de transporte que surpreende com seu charme naval — a costa suaviza. Chego a Portovenere. Aqui o ritmo é outro, menos frenético que em Cinque Terre. A Igreja de San Pietro se ergue numa ponta rochosa avançando ao mar, mais parecendo uma fortaleza do que uma casa de Deus. Chamam de Golfo dos Poetas, e, diante do spray das ondas perto da Gruta de Byron, entende-se por que os românticos nunca quiseram partir.
O sol começa a cair, tingindo a água de roxo profundo. Pego um barco rumo às pequenas ilhas de Palmaria, Tino e Tinetto. O motor ronrona, vibrando o banco de madeira. O capitão, jovem de cabelos queimados de sal, desliga o motor para nos deixar à deriva.
“Está vendo ali?”, aponta para o horizonte onde o mar encontra o céu. “É onde a luz muda. Na Ligúria, a luz nunca é igual. De manhã, prata. À noite, ouro.”
A viagem para oeste revela uma paisagem mutante. As falésias abruptas dão lugar à elegância da Riviera di Ponente. Sanremo lembra uma dama antiga, um pouco desbotada, mas ainda ostentando suas pérolas. A “Cidade das Flores” faz jus ao nome, o ar pesado de jasmim e sal. Caminho por La Pigna, o bairro antigo, que sobe a colina em espiral, entre passagens cobertas e escadarias.
Mas, para mim, a verdadeira magia está nos cantos pequenos e tranquilos. Camogli, no lado leste, com casas altas voltadas para o pôr do sol, é autêntica e vivida. A praia é de pedrinhas quentes, a focaccia é oleosa e salgada, e o ritmo da vida é ditado pelos barcos de pesca, não pelos ônibus turísticos. Mais a oeste, o vilarejo medieval de Cervo se agarra a uma colina sobre o mar, dominado por uma igreja barroca grande demais para o tamanho do lugar. Um ensaio de violino ecoa lá dentro, a música pairando sobre a praça onde me sento com uma taça de vinho branco Pigato.

Termino minha viagem em Alassio, caminhando pelo Muretto, o famoso muro decorado com azulejos assinados por Hemingway e Chaplin. Aqui a areia é fina e dourada, um luxo numa terra de pedras. O sol se põe, alongando sombras na praia. A Ligúria não é um lugar fácil. Exige subir, caminhar, atravessar espaços estreitos e trens lotados. Mas, ao ver as luzes acenderem nas colinas, espelhando as estrelas, percebo: o esforço é o que importa. Não se visita apenas a Ligúria; é preciso se envolver com ela.
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