Parador Cambará do Sul: Glamping de Luxo nos Cânions Gaúchos
Descubra o Parador Cambará do Sul: glamping de luxo, gastronomia regional, lareiras e paisagens impressionantes nos cânions do sul do Brasil.
Índice
- A Colmeia nos Campos de Altitude
- Sabores da Terra
- Ouvindo a Natureza
- O Ritual do Fogo
- Galopando na Neblina
A neblina aqui tem peso. Ela desliza sobre os campos da Serra Gaúcha não como um fenômeno climático, mas como um ser vivo, abafando os sons do mundo até que tudo o que se ouve é o crepitar da lenha na lareira. Estou na varanda de algo que parece uma cápsula de madeira futurista, pousada no meio do mato brasileiro. O ar é cortante, traz o cheiro de pinho e terra molhada, lembrando que, mesmo envolto em um roupão térmico, a natureza selvagem está a um vidro de distância.
Este é o Parador Cambará do Sul. Aqui, eles dominaram o conceito de "glamping" muito antes de a palavra virar moda. Desde 2001, o Parador desfoca a linha entre o contato bruto do acampamento e o conforto de hotel de luxo. Estou hospedado em um "Casulo". O design é proposital, inspirado nas colmeias das abelhas nativas sem ferrão. Parece orgânico, com linhas curvas que abraçam. Dentro, uma carta me espera, explicando a espécie de abelha que dá nome ao meu quarto, acompanhada de um pote de mel local. É um doce e dourado boas-vindas, com sabor das flores do caminho.

O sol começa a cair e a temperatura junto. Mesmo fora do inverno, os campos de altitude exigem respeito — e camadas de roupa. Sigo para o restaurante Alma, dentro do lodge principal, para o jantar. O calor me envolve assim que abro a porta. O aroma é de fumaça e ervas assando. A cozinha, comandada pelo Chef Rodrigo Bellora, segue uma filosofia de localismo que mais parece religião do que regra. Tudo passa pelo forno à lenha.
"Priorizamos ingredientes de uma rede de fornecedores locais", conta César, um dos funcionários, ao servir meu prato. "Produtos orgânicos, ingredientes frescos, tudo com aroma de brasa."
Ele apresenta arroz vermelho com pato e nêspera caramelizada, uma joia no prato. A truta, explica, é local, servida com legumes que ainda têm o frescor da horta. Alguns pratos de cocção lenta precisam ser encomendados com 24 horas de antecedência. Ao comer, percebo: não é só alimento, é um mapa da região servido em cerâmica.
A manhã traz outra experiência sensorial. Após um café da manhã farto de bolos e geleias regionais — servido das 7h30 às 10h —, sigo para as trilhas. A propriedade fica às margens do Rio Camarinhas, e a caminhada é leve, uma introdução suave à paisagem. Me deparo com uma instalação curiosa: dois grandes cones de madeira voltados para a mata, projetados para amplificar os sons da natureza.
Aproximo a cabeça. O som do vento nas araucárias dobra de volume. Ouço um pássaro a centenas de metros como se estivesse ao meu lado. É um convite à atenção plena, um lembrete para largar o celular e usar os sentidos.
Mas os verdadeiros gigantes estão mais adiante. Dirijo 32 quilômetros até o Canyon Fortaleza, no Parque Nacional da Serra Geral. A estrada é bruta — de chão batido e esburacada —, mas o desconforto some quando a terra se abre. Os penhascos despencam em um abismo verde. Custa cerca de 50 reais por pessoa para entrar, um preço pequeno por uma vista que faz a gente se sentir pequeno, no melhor sentido. Se tiver fôlego, dá para combinar com o Canyon Itaimbezinho, comprando ingresso conjunto, mas prefiro ficar ali, vendo as nuvens se prenderem nas pedras.

De volta ao Parador, o ar volta a se encher de fumaça, agora com cheiro forte de carne. É sábado, um dos dias reservados ao tradicional fogo de chão. Na cozinha externa, costelas são fincadas ao redor do fogo, assando lentamente por horas.
Encontro Vlad cuidando das chamas. Parece que faz isso desde sempre.
"Quanto tempo leva?", pergunto, olhando a camada dourada de gordura.
"Sete a nove horas", responde sem tirar os olhos do fogo. "Fogo forte, calor alto. Se vai comer ao meio-dia, a carne está aqui desde antes do amanhecer. Se for às duas, já são nove horas."
O resultado: carne que desmancha só de olhar. Mas o churrasco não é só carne. Entro na nova cave de queijos para conhecer Aurélio. Ele apresenta o Queijo Serrano, feito com leite cru há mais de 200 anos nos campos de altitude. "O pasto é totalmente nativo", explica, cortando uma fatia. "Sem ração, sem suplemento. É o gosto da terra."

O resto da estadia se dissolve em prazeres táteis. Passo uma hora a cavalo com a agência Galopar, cruzando campos em um animal que conhece o terreno melhor do que conheço meu bairro. Depois, para mudar o ritmo, subo num quadriciclo da Coyote Adventure, subindo até um dos pontos mais altos da fazenda para ver o horizonte se estender sem fim.
Mas o melhor momento é o final. É noite de novo. O serviço de arrumação deixou um chocolate e a previsão do tempo na cama — promessa de frio e neblina. Saio na varanda do meu casulo pela última vez. A Jacuzzi borbulha. O céu é um espetáculo de estrelas, sem poluição. O silêncio volta. Não é vazio; é cheio. Cheio de vento, de água distante, e da paz que só existe quando se está longe de tudo o que achamos que precisamos.
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